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Apostar na resiliência das profissionais do sexo: o que se pode aprender com a cooperativa USHA da Índia

Written by Admin | 27/mar/2026 22:33:47

Onde você guardaria seu dinheiro se os bancos se recusassem a lhe atender?

Antes da existência da USHA, muitas profissionais do sexo em Sonagachi — o “distrito da luz vermelha” de Calcutá, na Índia — deixavam suas economias nas mãos de cafetões e madames. Mas, muitas vezes, eram enganadas e acabavam perdendo todo o seu dinheiro. Outras vezes, a polícia local as extorquia.

Consequentemente, muitas profissionais do sexo optaram por gastar seu dinheiro assim que recebiam, ficando vulneráveis a despesas imprevistas como doenças, casamentos ou mortes em suas famílias. Nessas ocasiões, as opções que lhes restavam não eram nada favoráveis: aceitar empréstimos predatórios de agiotas ou trabalhos arriscados para conseguir pagar as contas.

Foi somente no início da década de 1990, quando foram iniciados programas de saúde sexual com o protagonismo das próprias trabalhadoras, que as profissionais do sexo de Sonagachi se reuniram para discutir possíveis soluções para a questão da precariedade financeira.

Em junho de 1995, a USHA Multipurpose Cooperative Society foi fundada com a missão de proporcionar segurança financeira às profissionais do sexo e oferecer oportunidades educacionais e de desenvolvimento profissional para os filhos dessas trabalhadoras.

A USHA foi a primeira cooperativa financeira criada para profissionais do sexo - e administrada por elas - no sul da Ásia. É a abordagem comunitária no campo da resiliência e da inovação financeira que garante o sucesso e a sustentabilidade da USHA.

Estamos em um momento em que o interesse por modelos financeiros alternativos está crescendo entre as organizações da sociedade civil. Portanto, há muito o que aprender com essas profissionais do sexo, que administram sua renda de forma a garantirem financiamento próprio para a categoria. Neste texto, destacamos três lições importantes da história da USHA, que podem ser aplicadas a diferentes contextos.1

 

1. Formar uma reserva coletiva fortalece a resiliência de todas

Começou pequeno: apenas 13 membros e o equivalente a US$360 dólares. Mas a USHA cresceu e se tornou a maior cooperativa financeira liderada por profissionais do sexo no sul da Ásia. Seus quase 40.000 membros estão alcançando independência econômica por meio de um leque de serviços de poupança, empréstimos e meios de subsistência.

Então, o que é necessário para realizar os sonhos antes inimagináveis para profissionais do sexo e suas famílias?

Dois dos principais serviços da USHA são empréstimos a juros baixos e contas de poupança com juros altos para seus membros.

  • Cerca de 4.000 a 5.000 profissionais do sexo recebem empréstimos a cada ano. A USHA também oferece esquemas de microcrédito e empréstimos para educação de até (o equivalente a) US$3.600 dólares. Aproximadamente 40% dos empréstimos são usados para a educação dos filhos dos membros, segundo a USHA.
  • Os serviços de poupança incluem contas flexíveis, contribuição diária, depósitos fixos e um produto associado à Life Insurance Corporation of India.3

Hoje, a USHA tem um faturamento anual de cerca de US$2,3 milhões de dólares. O impacto deste trabalho na resiliência individual e coletiva da comunidade é multifacetado. Além de ajudar os membros a desenvolver hábitos mais responsáveis de poupança e consumo, a organização também permitiu que profissionais do sexo criassem uma reserva financeira à qual podem recorrer em momentos de crise.

No nível comunitário, as profissionais do sexo não estão mais à mercê de agiotas predatórios. Isso gerou uma diminuição significativa no endividamento e na exploração a que eram submetidas por não terem como pagar suas dívidas. Além disso, muitas crianças que tiveram acesso à educação com o apoio da USHA conseguiram empregos bem remunerados em diversos setores, incluindo cargos importantes no governo.

2. A responsabilidade financeira e a construção de movimentos sociais caminham de mãos dadas

O cerne das operações da USHA é um modelo democrático de governança com um conselho  composto por nove membros eleitos (todas profissionais do sexo). A USHA emprega outras 47 pessoas, dois terços das quais são mulheres. Profissionais do sexo mais velhas e filhas de profissionais do sexo têm prioridade no processo seletivo.

O sistema de contribuição diária torna as transações financeiras eficientes para as profissionais do sexo, ao mesmo tempo em que gera empregos para os coletores. Este serviço aumentou o número de membros (multiplicando por cinco o montante depositado em um ano) e promoveu um sentimento de pertencimento e empoderamento entre as pessoas que trabalham como coletoras4

Como salientou a feminista e especialista em recursos Tenzin Dolker, “Mobilizar recursos já é, em si, a construção de um movimento: ampliar a base de apoiadores, mobilizando os integrantes do movimento e, idealmente, construir relações de longo prazo”.

No entanto, nem sempre foi fácil. Levou um tempo para receber o reconhecimento legal junto às autoridades, bem como a confiança da comunidade para, assim, ter maior adesão. No início, as pessoas não entendiam o que a cooperativa oferecia. Mas, em 2022, a USHA se tornou uma voz nacional poderosa; a organização desempenhou um papel fundamental em uma decisão histórica da Suprema Corte, que reconheceu o trabalho sexual como uma profissão.

E os resultados financeiros falam por si. A taxa de recuperação de empréstimos da USHA é superior a 90% — uma taxa incrivelmente impressionante (uma das melhores do estado de Bengala Ocidental) que ressalta a confiança e a responsabilidade entre os membros que compõem a instituição.

3. Liderar com um espírito de inovação que responda às necessidades da comunidade

A liderança da USHA no movimento pelos direitos e autonomia das profissionais do sexo é única, caracterizada pela inovação, experimentação e profundo compromisso em oferecer serviços que respondam às necessidades de seus membros.

Esse espírito permitiu que a cooperativa passasse de uma organização de poupança e empréstimo para uma instituição que realiza programas robustos, incluindo atividades para a geração de renda e meios de subsistência alternativos. Alicerçadas pela missão de autodeterminação das profissionais do sexo, essas atividades geralmente combinam geração de renda com propósito social.

Por exemplo, uma dessas atividades envolve o marketing social sobre preservativos, combinando geração de renda com a incidência política para a promoção do sexo seguro. Outro exemplo é a distribuição de absorventes higiênicos (com planos para produção dentro da própria organização), melhorando assim a saúde menstrual das trabalhadoras e, ao mesmo tempo, criando empregos. Outros empreendimentos incluem o bordado tradicional kantha, a venda de itens de uso diário, bem como a agricultura e a piscicultura em algumas regiões (iniciativa que recebe algum apoio do governo). A USHA também disponibiliza cursos profissionalizantes nas áreas de estética, elétrica, carpintaria, condução de veículos automotivos e operações de informática para seus membros.

Hoje, cerca de 80% dos lucros da USHA vêm dessas atividades comerciais. Outros 10% vêm de juros de empréstimos e outros 10% vêm de instituições de financiamento estrangeiras que apoiam projetos específicos. Uma prioridade fundamental é continuar gerando lucro a partir dessas atividades.

Próximos passos

A história da USHA e sua evolução representam uma defesa audaciosa da dignidade, da autonomia e dos direitos. Por meio de seus esforços, as profissionais do sexo conquistaram inclusão financeira, reconhecimento social e acesso à educação, além de condições de trabalho mais seguras.

Olhando para o futuro, a USHA planeja ampliar seu trabalho com um “Projeto de Construção de Sonhos”. Esse projeto ajudaria ainda mais profissionais do sexo a realizar seus sonhos por meio de grupos de autoajuda financeira, como associações de crédito rotativo. Em particular, a USHA espera apoiar profissionais do sexo com mais de 45 anos na transição para outras atividades de geração de renda. Creches, por exemplo, são uma oportunidade importante que elas identificaram.

Sabendo que a inclusão de profissionais do sexo em um setor gera efeitos positivos em cascata, a USHA está pronta para fazer outro grande investimento: saúde. Os serviços de saúde para profissionais do sexo atualmente se resumem basicamente a programas de tratamento e prevenção do HIV/AIDS. Contudo, essas profissionais (como qualquer outra pessoa) têm outras preocupações com a saúde, que surgem de tempos em tempos. Percebendo essa lacuna, a ideia da USHA é criar um serviço de saúde abrangente para os membros de sua comunidade.

Como sempre, o reconhecimento da pessoa como um todo, de suas necessidades e sonhos, continuará sendo peça central dos serviços oferecidos pela USHA às profissionais do sexo nos próximos anos.

Notes
  1. Este texto se baseia em uma conversa com Bharati Dey, Santanu Chatterjee e Rahul Das, da USHA, que se reuniram com a Spring, a Human Rights Funders Network, a Solidaire e a vários financiadores globais de justiça social e climática para discutirem sobre como o setor filantrópico pode responder a um mundo que vive uma crise de auxílio e financiamento para organizações da sociedade civil e fomentar modelos financeiros resilientes. Para saber mais sobre nossa série de conversas públicas de 2025 sobre esse tema, visite nossa Biblioteca Reimaginando a Resiliência.
  2. Citação de uma membra da USHA (UNFPA).

  3. Citação de uma membra da USHA (UNFPA).

  4. Citação de uma membra da USHA (UNFPA).

  5. Citação de uma membra da USHA (UNFPA).

  6. Citação de Bharati Dey (NSWP).